domingo, novembro 06, 2005

Nº 3183

Eis-me, algures, neste lindíssimo lugar, com uma elegância e uma imponência verdadeiramente excepcionais. Trata-se duma Universidade, a de Évora, onde as salas de aulas se amontoam ao longo duns claustros fabulosos e as paredes são forradas com uns magníficos azulejos que lhes conferem uma distintíssima dignidade.
Eis-me, algures, a vaguear pelo pátio e pelos corredores deste edifício antiquíssimo, sentindo como minhas as palavras do escritor Virgílio Ferreira, que sobre Évora dizia: “Conheço os seus espectros, a vertigem das eras, (…), nas pedras cor do tempo ouço um atropelo de vozes seculares”. É mesmo isso que sinto ao vaguear por aqui… E emociona-me particularmente sentir, neste edifício, essa noção da antiguidade de Évora, pois foi neste edifício que o meu pai frequentou o liceu, nos anos 30 do século passado, e onde, curiosamente, teve o privilégio de ser aluno do mesmo Virgílio Ferreira!
Sinto história neste local e tento imaginar como seriam, nessa altura, as brincadeiras naquele recreio, como seriam as aulas dentro daquelas salas. Mas não consigo. As coisas mudam, escapando à nossa capacidade de entendimento: imaginam, hoje em dia, um liceu público só para rapazes? Que tédio…
Volto a mim. Evaporou-se o estatuto que tenho na minha escola: aqui, os que passam, sabem lá se sou engenheiro, sabem lá se sou professor… Na minha escola todos me (re)conhecem, mas aqui está-me reservado o estatuto que se dá à gente anónima. Isso é bom ou é mau? Nem uma coisa nem outra: é diferente. E a diferença sente-se sempre, mexe connosco, intimida-nos mas desafia-nos.
Algures, por ali, na sala 106, marco presença numa aula. Mas não estou de pé, como me habituei nos últimos tempos: agora estou sentado, eventualmente com uma expressão típica de aluno caloiro; não dou a aula: assisto a ela; não escrevo o sumário: assino a folha de presenças; não recebo ordenado: pago propinas; não tenho cartão de professor: tenho cartão de aluno – sou o nº 3183.
A aula avança e eu vou-me lembrando do que o meu filho Vasco me disse, quando soube que eu iria frequentar um programa de doutoramento na Universidade de Évora: “O quê, vais voltar a estudar? Agora é que te vais lembrar do que custa ser aluno…”. Cá estou para ver isso. Para já, vou sentindo como a cadeira onde me sento é insuportavelmente desconfortável; como custa manter a concentração e o interesse numa aula de 4 horas; como a sala é fria; como é embaraçoso olhar à volta e não ver caras conhecidas; como é estranho estar numa cidade que não é a nossa… E dou comigo a pensar que os meus alunos também devem ter destes e doutros problemas, sem que nós, professores, eventualmente os valorizemos da maneira devida. Nisso tens razão, Vasco!
Mas a minha filha Rita, quando soube que eu iria frequentar aquele programa de doutoramento, reagiu de forma completamente diferente: deu-me os parabéns e incentivou-me, lembrando-me o quanto “é bom estudar e aprender coisas novas”. E, quando a cadeira me fazia doer as costas, ou quando a concentração me falhava, ou quando o frio da sala se tornava mais intenso, ou quando eu pensava na cidade e nas caras estranhas que me rodeavam, eram as palavras dela que me vinham à memória: ao fim e ao cabo, tudo isso era um preço razoável a pagar para ter o privilégio de pertencer àquela elite de alunos doutorandos, para poder ter acesso a um curso de formação avançada tão interessante como este promete ser. E, também aqui, dei comigo a pensar em alguns dos meus alunos que, por vezes, parecem não perceber que é um verdadeiro privilégio ser-se aluno do ensino superior num país com falta de recursos e abundância de iletrados. E que esse privilégio deve ser retribuído com grande dedicação e esforço pessoal na realização dos cursos. Nisso tens razão, Rita!
E, tal como os meus alunos, também eu olho para a difícil missão que tenho pela frente: vários anos de um esforço imenso, diz, quem sabe, que é mesmo um esforço brutal. Ainda por cima com os filhos à perna (“Quando é que tens testes?”; “Já estudaste tudo?”; “Vai trabalhar” – ai, como eles se vingam do que eu lhes faço!). Ainda por cima com o embaraço de sentir que ambos têm razão: é difícil a condição de aluno, como diz o Vasco, mas é óptimo estudar, como diz a Rita!
E, para além de tudo isto, também a mim me assaltam as dúvidas: serei eu capaz de fazer este curso e ser pai e ser marido e ser filho e ser irmão e ser professor e ser amigo dos amigos e ter tempo para mim e ter tempo para os outros e…e … e…? Serei capaz de vencer este desafio conciliando-o com tudo o resto? Serei eu capaz?
É o momento certo para lembrar o que escrevi em posts anteriores: que “O Optimismo constrói-se” e que “O primeiro passo para obter uma determinada coisa é acreditar que vamos consegui-la”. Se serei capaz? Se é essa a opinião que dou aos outros, só posso achar que sim, não é? Conto comigo e com os outros: “a vitória é difícil mas é nossa”!

1 Comments:

Anonymous Miguel Caraça said...

Já por aqui tinha andado, mas como o tempo é curto não tinha reparado que o professor agora se tornou aluno, e ainda por cima na minha LINDA e SANTA terrinha, venho agora (espero que não seja tarde demais...lol) dar-lhe uma força e dizer que de tudo somos capazes basta uns sacrificios... zinhos. Das palavras dos filhos só pode tirar a mesma lição que lhes dado a eles, nada se consegue sem sacrificio.
Bela terra essa.

9:42 da tarde  

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